sábado, dezembro 30, 2006

Se eu me perder


Tira-me daqui!
Pega em mim e leva-me contigo.
Arrasta o conteúdo que me resta e não o deixes fugir.
Ata-o a mim com fita de cetim vermelho e musicas quentes sussurradas ao ouvido.
Não deixes que eu desfaça o laço.
Não deixes que me dispa e que caminhe nua sob a chuva.
Ensina-me outra vez que com a boca posso sorrir, que as lágrimas também caem de felicidade e que o coração só bate com uma razão de bater.
Agarra-me contra o teu peito, entrelaça os teus dedos nos meus, e aperta com força que eu tenho medo de cair.
Beija-me a face e promete em segredo que se um dia me perder,
me vais procurar.
In Contos Fictícios

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Fuck Love

Sai!

Não me telefones mais.
Não leias o que escrevo, e esquece a marca dos meus passos no teu caminho.
E ainda que não me esqueças, pelo menos não me faças lembrar-te.


Não me voltarás a tocar nunca mais.
Nem a sentir uma única parte de mim senão o meu desprezo


Larga-me, deixa-me.
Já te disse,
tiveste o teu momento e não soubeste aproveitar.
Eu avisei.te que era um jogo. E dei.te a escolher não entrar.
Mas achaste que aguentavas, e eu fiquei a ver até onde ias.

Acabaste de sair do jogo por desclassificação, e eu nem sequer lamento.
Eras lamechas e humilde e romântico…como pudeste achar que EU podia ser quem tu querias?

Va, larga-me, sai e não me faças perder muito mais tempo.
Tenho uma vida por viver, e um mundo cheio de pessoas interessantes para conhecer, para me fazerem dar gargalhadas, para preencherem os meus dias, levarem-me para a cama de hotéis, e adorarem-me do jeito que gosto.

Sei sim, perfeitamente, que não é para sempre.
Achas mesmo que és tu quem me vai ensinar algo sobre mim?
Desengana-te!

Não quero saber se me amas.
Quem te disse a ti que é isso que procuro?
Pára! Pára de falar comigo. Não entendes que as tuas teorias e utopias românticas não alinham com o meu registo?
Mais do mesmo é o que tens para me dar.

Amor!
Amor?
Em que mundo vives? Não sabes que isso já nem se usa?
Que proveito posso tirar eu disso.
Deixa-te de cenas ridiculas. Só falta chorares.


Larga-me.

Pára de falar comigo.

Descola-te da minha pele.

Desencaixa o teu corpo do meu.

Sai de cima de mim e não me deixes nada por cá.

Que eu vou já tratar de limpar o teu cheiro da minha roupa.





In Contos Fictícios

quarta-feira, novembro 15, 2006

Dox, meu maluquinho



Só quando o cheiro da morte nos atola os olhos , é que nos apercebemos de quantas lárgimas desperdiçamos com o cheiro de vidas que não merecem o nosso choro.
Em dois dias morri um bocadinho.
Num dia e numa noite morri contigo.
E hoje morro também com o pânico de morrer comigo.


Virei-me quando ouvi uma pancada pouco lúcida, já pronta para ralhar contigo.
Gritei o teu nome na esperança de ser apenas mais uma das tuas travessuras, mas não vieste, nem respondeste.
Corri e vi.te no chão, aterrorizada.
Ajoelhei.me e olhei.te e chamei.te.
Os teus olhos abertos e brilhantes não reagiram, e o calor do teu corpo não me deu mais se não a cruel camuflagem de uma realidade que não quis ver.
Acreditar que ainda te tinha comigo, e que tinha sido so o choque.
Vi a tua fragilidade que não tinha querido ver nunca, nem naquele dia em que chegaste miserável a casa, depois de 3 noites sem sabermos nada de ti.
Habituaste.nos a ser invensível, forte, grande, arruaceiro, protector e orgulhoso.

Pedi que esperasse. Que ficasses mais um bocadinho, e não partisses já.
Pedi.te que me ouvisses e que falasses comigo, e abracei-te como se quisesse dar-te um bocadinho da minha vida, enquanto já nada podia fazer.
Morreste-me nos braços, e eu morri um bocadinho contigo.
E tu has-de viver um bocadinho mais em mim, em nós.


Entraste em nossa casa da mesma forma que saíste. Inesperada.
Apaixonámo-nos por ti, com a mesma intensidade com que agora nos despedimos.
Obrigada pelo amor incondicional que sempre nos tiveste.

A unica coisa que me faz sorrir é saber que foste feliz. O mais que te pudemos fazer ser.

Fazes-nos tanta falta!



Amanha acho que vou finalmente levar-te à praia.
Queres vir?

quinta-feira, setembro 14, 2006

Se

Se eu pudesse pedia-te colo.
Se tivesse certeza que eras tu a silhueta que os meus olhos podiam ver ao longe, entrava no nevoeiro e deslizava até ti.
Se me dissesses que tinhas uma manta polar onde me aconchegar deixava que a humidade formasse gotas grossas sobre a minha pele.
Se eu soubesse que eram os teus braços que eu tinha no final da viagem, ia de olhos fechados.
Se eu pudesse, pedia-te colo e que aceitasses o meu... e que adormecesses encaixado em mim até que a manhã chegasse.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Os poemas nao tem que rimar








Tarde de sol, vontade de fogo.
O dia escurece ao som de um tango bebido entre vozes amigas. No único sitio que me fazia reconhecer-te
O vento levanta e o frio cobre-me, como a incerteza de uma noite longa.
Ler a tua voz escrita, que finalmente chegou, ruidosa.
As coisas começavam a tomar o rumo que o destino as deixava que tivessem.
Ruas cheias de gente e o meu perfume a inundar-me o cérebro de almas, histórias e palavras.
Confundia-se com o teu que (eu) ainda nem cheirava. Só sentia lá longe. Algures.
Um sitio novo a conhecer. O primeiro dessa temporada que mais tarde vim a saber duraria algumas horas até que se fizesse dia.
Novamente tango, porque essa noite seria pintava de cores rúbeas, e o caminho até ao largo.
Descer e subir ruas. A calçada.
Ver caras e seduções.
Homens que seduzem homens. Mulheres que seduzem mulheres. Pessoas que me seduzem a mim.
Charros nas mãos. Líquidos nas outras. De vários tipos, alguns que nem se viam.
Mentes perversas, e corpos conturbados.

A tua voz não era a mesma de sempre e o barulho de outras vozes não me deixava ouvi-la nítida como era necessário.
Vi-te. Não me agradavas e eu não te agradava a ti. Mas criavas desejos estranhos e vontades insaciáveis em mim.
Fica difícil escrever-te.
Foi tão mais fácil olhar-te, e ao sitio que (des)habitas.
Quantas histórias de amor não teriam existido já ali, nesse teu espaço vazio. Esvaziado.
O que te faria mudar de ideias e mantê-las. Seres quem queres e não quem eras.
Mente fechada a minha, ou apenas intrigada.
A luz.
Foi essa a companheira da noite, que se queria afinal escura.
Ironias.
Ela deu.me formas e aproximou.nos.
O meu corpo queria, o eu que me habita não me deixou.
Não sei se por mim se por ti. Se pelo nós que jamais existirá!
Mas quantas vezes o nós não houve e eu deixei que acontecesse?
As tuas mãos.
Suaves demais para o que se esperava. Mas de toque confortável, ao contrario de tudo.
Consigo descrever cada pedaço do que vi, e saborear ainda cada pedaço do que senti.
A tua boca, finalmente na minha.
Tudo tão pouco eu. Tudo tão pouco tu. E ainda assim, estávamos juntos ali.
Não sei se viajávamos pelos mesmo lugares. Mas tenho a certeza que era eu que ali estava contigo. As vezes. Nem sempre.
Aquilo que és não sei. A forma como escreves. Qual é?
Fazes-te desabitado. Porquê...?
E se não receasse tanto que isso te faria não me contares, diria que é precisamente por isso que ainda te persigo. Pelas razões.
A estranheza do que não és.
A estranheza das tuas mãos, do teu toque e dos teus lábios.
A estranheza do teu olhar enquanto ainda nada ou tudo eras.
Os teus olhos em mim, mesmo quando não te olhava.
Gosto que me olhes e quando me olhas. Mais uma vez, porquê não sei.
Mas isso não interessa dizes tu.
A luz azul fria, a luz branca única e desconfortável, a luz amarela. Viva a dar-nos forma.
E o seu reflexo no ecrã estrategicamente inexistente.
Gostas assim. Que seja tudo estrategicamente inexistente.
O que (eu) fazia ali, desconhecia. Mas quando cheguei a vela já estava acesa. E imagino que continue. Sempre, até à próxima boca carregada de voz que ali entrar.

O vento que és chegava até nos em jeitos metalizados, e as tuas palavras faziam-se ouvir.
Prosa, ou poesia.
Que escreves tu?
Não sei.
Somos como dois versos que não encaixam.

E porque hão-de os poemas ter que rimar?

terça-feira, agosto 22, 2006

Afinal era possivel amar-te

Estacionei o carro à porta, peguei na carteira e saí. Deixei o casaco.
Tinha frio no meu vestido preto de costas abertas. Abracei-me e caminhei no sentido contrário ao mar. Sentia a brisa gelada e o vento a arrepiar-me o corpo, em sintonia com alma que já estava antes de ali chegar. Nem a minha pele nem o meu coração diziam que era uma noite de verão.
As minhas sandálias mostravam-me o caminho do corredor de gravilha que dava à entrada. Parei. Olhei as enormes janelas do loft e lembrei-me de quantas vezes já ali tinha estado, de quantas vezes não me conseguia lembrar devido ao estado em que chegava, e das pessoas todas que lá entravam com propósitos sobejamente hardcore para me estar a recordar naquele momento.
Mas assim, como nessa noite? Assim nunca me tinha atrevido a aproximar-me sequer.
Pensei voltar para trás, mas já me tinhas visto. E eu a ti e aos teus olhos de lince.
Não foi preciso tocar, a porta abriu-se. Sorriste com o ar de anfitrião de uma festa que estava prestes a começar, julgavas tu e receava eu.
Tinhas reservado a noite para mim, depois de receberes a minha chamada.
Entrei silenciosa. As tuas mãos agarraram-me o cabelo com desejo e beijaste-me encostado a mim a denunciar o que se seguia. O teu corpo estava quente e as tuas mãos tocaram-me as costas. Largaste-me e levaste-me até ao sofá enorme, vermelho e de formas generosas de design.
Olhei a mesa de vidro e tinhas já as linhas preparadas. Uma para ti, outra para mim, e uma que partilhávamos sempre até os nossos narizes se encontrassem como o fio de esparguete no conto infantil.
Não nos amávamos mas havia uma qualquer cumplicidade que nos unia. Tratavas-me sempre como se fosse a rainha da festa apesar de ambos sabermos que aquele era um reino de muitas rainhas. E os teus braços eram fortes e contigo sentia-me segura para tudo. Menos para te amar.
Passaste à minha frente e foste andando tranquilo no teu território. Espaço amplo, super bem decorado - tínhamos comprado umas coisas juntos numa dessas tardes no Chiado – paredes quase inexistentes, janelas enormes de vidro, o mar ao fundo. Entraste na cozinha e vi.te tirar a garrafa de Wiborova, que nunca deixavas faltar, do congelador. Pegaste naqueles copos quadrados e em amoras frescas que tinhas numa taça.
Sentaste-te junto a mim, mordeste-me o pescoço e serviste-nos, deste-me uma à boca e comeste outra. Beijaste-me outra vez com a vontade carnal a que nos habituamos, e pediste-me que fizesse as honras da mesa.
Continuava calada.
Levantei-me sem dizer nada, baixei as luzes, peguei na garrafa e pu-la novamente no congelador. Voltei à mesa, ajoelhei-me e tentei reunir o máximo de partículas brancas que por ali havia e despejei-as num dos pacotinhos com o stock generoso para o resto da noite. Sobrou uma poeira sobre o vidro, que comprimi contra os dedos e lambi.

Sempre adorei estar contigo…só lamentava que tomasses tudo como certo, e que não compreendesses rapidamente que havia noites em que comigo não podia ser assim.

Olhaste.me com a estranheza de quem não se conhece até que finalmente e com alguma dificuldade te disse:
Hoje não quero vodka, quero chocolate quente. Hoje não quero cheirar, quero cheirar-te, hoje não quero sala e sofá, quero quarto e cama. Hoje não quero adormecer já inconsciente num canto qualquer da casa e sem roupa, quero adormecer do teu lado, sobre o teu peito e nos teus braços. Hoje não quero que me mordas nem me fodas…hoje quero me ames. Hoje quero que finjas que me amas.
Hoje dói-me por dentro e não quero ficar mais vazia do que já estou.

Esperaste que me calasse e que começasse a chorar compulsivamente sem querer.
Peguei na carteira e levantei-me para ir embora.
-Desculpa, não devia ter vindo.
Agarraste o meu braço, abraçaste-me com força e deixaste que chorasse no teu ombro como nunca me tinhas visto fazer antes.
Levaste-me para o quarto, deitaste-me e deitaste-te ao meu lado e encaixaste em mim que nem concha.
Adormeci com as tuas mãos a passarem no meu cabelo e os teus beijos no meu ombro. Porque é que nunca me disseste?

Até hoje não sei se foi da tua boca que saíram aquelas palavras se foi fruto da minha mente conturbada.

E desde essa noite nunca mais tivemos juntos. E foi a partir dessa noite que percebi que afinal era possível amar-te e que afinal tu próprio também sabias amar…mas não era essa a tua nem a nossa natureza!

Acho eu.


sexta-feira, agosto 18, 2006

Encontro com estranhos


Acordei enroscada. O espaço era grande, e não entendia bem porquê estar tão próxima de outro corpo que não o meu.
Estava confusa mas inundada de uma sensação estranhíssima de preenchimento. Algo que não tinha há muito.
Lembrava-me apenas que me tinha desprendido de mim na noite anterior. Deixei que a mente se elevasse e se afastasse do meu eu material.
O som entrava em mim, e fazia-me mexer sozinha como se nada mais importasse.

Depois disto não me lembro mais de como tudo começou. Mas tenho em memória que a tua alma subiu la acima junto à minha e lhe fez companhia, e dançaram juntas.

Aos pouco e poucos ia acordando, e ainda pouco fazia sentido. Olhei para ti como se nunca te tivesse visto antes
As tuas mãos envolviam-me, e a tua pele estava tão colada na minha que a sensação era de que não nos iamos descolar nunca.
Queria dizer qualquer coisa e não sabia o quê.
Quem eras?
Os teus lábios tocaram os meus, e como se as palavras estivessem a sair da minha própria boca, disseste:
Shhhhhhh, não digas nada. Há coisas que não se explicam nem se entendem. Sentem-se. Não vamos estragar.

Abraçaste-me novamente e deixei-me ficar no teu peito.
Ali fiquei sem fazer perguntas, e sem tentar sequer duvidar das coisas reais.
Adormeci tranquila e certa de que não me ias largar nunca... pelo menos até aquele momento acabar.